Comentarios XVIII Simpósio

Comentários aos trabalhos de Liliane de Paula Toledo e Marina G. Menita

XVIII SIMPÓSIO DA ASSOCIAÇÃO DE PSICOTERAPIA PSICANALÍTICA

                                10 de junho de 2017

Comentários aos trabalhos de Liliane de Paula Toledo e Marina G. Menita Bom dia! É um enorme prazer estar aqui hoje com vocês conversando sobre um assunto que

me é tão especial.

Meus agradecimentos à Associação de Psicoterapia Psicanalítica, a APP, como carinhosamente a chamamos,especialmente às colegas Luzia e Maia, por me concederem

esta honra. Sou também muito grata às colegas Liliane e Marina que,generosamente, nos trouxeram seus trabalhos permitindo, com isso, que possamos ampliar nossos

conhecimentos através da reflexão e da discussão do material.

Pois bem, são dois interessantes e pujantes relatos de experiências clínicas. “Luto e Vida Severina” eu já conhecia, pois tive o privilegio de ter acompanhado Liliane,

como sua supervisora, no primeiro ano do curso de especialização em Psicoterapia Psicanalítica. É com orgulho que a ouço aqui revelando suas reflexões e revelando-se

como profissional competente, primorosa e dedicada que é. Considero um presente esse belíssimo trabalho ao final do ano passado. Marina, a quem não conhecia,

me encantou com sua delicadeza e seu olhar aguçado em “As ninfeias de Monet e a função analítica”, mostrando ainda sua intensidade e seu conhecimento.

Ambos trabalhos são expressões vivas daquilo que entendemos como aspectos fundamentais da função analítica: amor à verdade, capacidade negativa, intuição,

tolerância à angustia, entre outros. Mas, antes de tudo, o que de pronto me tocou foram as escolhas das metáforas pictóricas das autoras.

Fiquei pensando.... o que as levou a escolher esses 2 coadjuvantes para contar, junto com elas, a história de suas pacientes? O que as terá mobilizado?

No luto, a literatura de cordel ⎯ forte, intensa, rústica, quase agressiva ⎯ de João Cabral de Melo Neto. A delicadeza das ninfeias de Monet e a relação fusional de Gabi.

Ao longo do trabalho elas explicam a relação que estabeleceram, mas dentre tantas possibilidades ..... É muito bonito, quase lírico, observar desse lugar que nos foi

concedido, as aproximações, as analogias, as tessituras, que o escolhido lhes permitiram. Se relacionam, evidentemente, com as experiências que viveram com suas

duplas analíticas. Severina, dura, direta, de uma carência de cuidados que até doí, uma vida inteira judiada. Na relação analítica com Liliane impôs-lhe uma condição

também dura, sessões áridas, cobranças diretas: Eu espero ser cuidada!!! E exigia isso a cada sessão. E Liliane lhe deu cuidado, e lhe deu mais. Deu conhecimento de

si, deu continência, e deu o que precisava na medida. Gabi, nome fictício com que Marina lhe chamou, curiosamente pela metade ⎯ Gabi ⎯ , provavelmente do inteiro

“Gabriela”, me fez pensar: aonde terá ficado a outra parte dela? Marina me leva a cogitações também relacionadas às identificações projetivas e aos aspectos

transferenciais da relação analítica. Por que as ninfeias de Monet? Fui buscar e apreciar as imagens belíssimas, saber dos inúmeros tipos, assistir a breves vídeos de

Monet pintando em seu belíssimo e grandioso jardim, até lembrei que um dia já tive a oportunidade de ver os murais. Plantas aquáticas ligadas ao fundo por um longo

caule, que se movimentam na superfície, mas com a possibilidade e a restrição que o caule ⎯ uma espécie de cordão umbilical ⎯ lhes permite. Muito interessante para se

falar de uma jovem que vive aprisionada a um relacionamento primitivo, engolfante, num espaço lodoso, pegajoso e adesivo. 3 Nos voltemos agora para Severina e seu

luto. Logo no início, Liliane percebe em Severina recursos significativos, que se sobressaiam ante condições tão difíceis de vida. A demanda que a mobilizou foi a morte

do marido que editou e reeditou tantos outros lutos e sentimentos paradoxais inerentes às perdas por ela vivenciadas como abandono. Chama atenção que diante de

tanto desamparo ainda tenha mantido íntegra a pré- concepção/expectativa de que haveria alguém que pudesse cuidá-la e ajudá-la a transformar protoemoções em

emoções possíveis de serem vividas, pensadas, compreendidas. Provavelmente pode manter pela presença ainda que, muitas vezes só física, dos objetos primários ou

de seus representantes. Na doença, a mãe a seu lado; o pai no orfanato, a tia e as férias, o marido que a liberta da casa e da violência paternas. Objetos frágeis, porém

presentes. É na psicoterapia que Severina experimenta a possibilidade de encontro em um espaço sólido, que abre, através da transferência, um canal de comunicação

entre ela e o outro, e ela e si mesma, não mais como espaço de expulsão de conteúdos indigestos, mas como espaço de transformação. A relação analítica se inicia e

aos poucos e firmemente, Liliane e Severina, vão estabelecendo uma ligação onde ela pode ser vista e decifrada, por uma mãe/terapeuta que decodifica e nomeia seus

sentimentos tão calejados, maltratados, que de tão doidos, já nem se sentia mais a dor. No início, a morte do marido, visto somente em seus aspectos cindidos ⎯ muito

atacado e desvalorizado ⎯ torna este, portanto, não necessário, não perdido, e então, não sentido. Para que isso tenha sido possível fez se necessário alijar-se de seus

sentimentos amorosos para com ele e das vivências positivas que compartilharam. Só o ruim pode aparecer, só com o ruim ficou. Severina e seu marido me lembraram de

algo que li há tempos, num livro de Antonino Ferro, 4 digamos de Literatura.... se é que posso chamar assim. Fui procurar e encontrei em um fragmento: Não se amavam.

Todavia, eles se ajudavam a viver, talvez não pouco, consentindo que cada um desprezasse o outro ao invés de si mesmo. (A mesa ao lado. Ferro, A. 2005:74) Penso

que na morte do marido, tanto odiado quanto amado, Severina revive a culpa pela perda da mãe precocemente experimentada. Ela não ficou com a família. Por que?

“Também não posso condenar (a tia), a gente devia dar trabalho”, disse a respeito da tia não acolher seu medo. O objeto perdido (originalmente a mãe e depois o

cuidado da tia) fica introjetado e passa a funcionar como consciência moral, um superego cruel, que a acusa pela perda do objeto. Quando ela finalmente se junta à

família, aos 13 anos, ocupa o lugar da mãe morta junto a um pai/marido que a espanca severamente. Seria para afastar os desejos incestuosos para com a filha/mulher?

E da parte dela, funcionaria como punição/castigo por roubar o lugar materno? No casamento, novamente a culpa: ele viaja (abandona) por dois meses e ela acreditava

ser porque não a amava e sentia vergonha dela. A consciência moral primitiva não lhe dá trégua, à cada perda a acusação. Havia perdido o marido muito antes dele

morrer. Casou mas o perdeu para a bebida, ficando com o outro - o alcoólatra. Essa consciência moral, fruto das experiências emocionais de origem edípica, lhe impõe

sempre a responsabilidade por não ter o amor e o cuidado do outro e a cada vivência de perda se atualiza (vividas e revividas na morte da mãe, na volta à casa, no

casamento.....) 5 Algumas fantasias e experiências não conseguem um espaço para serem revividos, frente à intensidade das angústias a que estão associadas e ao

esgarçamento emocional provocado pela repetidas perdas. Aos poucos, a dupla vai costurando e refazendo os tecidos que unem os sentimentos e os objetos de

Severina. Aquilo que foi necessário cindir e separar de si pode agora ser visto, integrado e integralizado ao seu patrimônio emocional, permitindo-lhe certa liberdade de

viver. Ela pode mudar da casa onde viveu com o marido para um apartamento só dela, pode abdicar de ter cuidadores, podendo cuidar de si, entre outras conquistas.

Nosso querido Ryad Simon, aqui presente, nos ensina, no entanto: “Provavelmente a perda de qualquer pessoa muito amada (e portanto muito odiada) nunca pode ser

totalmente elaborada. Sempre ficará uma dissociação no ego englobando uma área psicótica. (Simon, R.1998) Agora falemos das Ninfeias de Monet e da dupla Marina e

Gabi. Na primeira leitura parecia me faltar dados: qual seria a idade da Gabi? Parece tão menina....Qual faculdade cursava? Algo relacionado à moda ou à estética? Qual

a função do TOC nessa constituição e nesse dinamismo psíquico? Seria o TOC um fundo lodoso, aprisionante, enrijecedor...Ou seria a defesa possível para não

enlouquecer? Em sua explicação sobre Monet e as ninfeias, Marina nos informa do trabalho longo e intenso empreendido para que o pintor concluísse sua obra em

condições precárias de visão inclusive, ao mesmo tempo que lidava com o trabalho, ainda mais árduo, de luto de entes queridos. Marina nos leva para apreciar o

movimento dos pequenos traços, das cores e das nuances presentes nos murais aproximando do movimento que ocorre na sala de 6 análise entre ela e sua Gabi.

Incialmente traços mais indiscriminados que caminham até se tornarem contornos. Seu proposito foi discutir a função analítica, e eu acrescentaria, função analítica em

situações de intensa fragilidade egóica do paciente. Aproxima as condições do pintor impressionista às do terapeuta, este também às voltas com impressões, as vezes em

movimento, outros paralisado, e na maioria, nos escapando. No trabalho analítico é mister suportar os períodos de pouco entender, nada saber, conteúdos dispersos,

sem coerência até que seja possível alguma ordem, algum sinal de integração. A possibilidade de momentos criativos na análise requer tolerância à espera, à angustia do

paciente e à nossa. Marina aponta para os lutos do analista. Muito interessante. Quantos lutos são necessários para estarmos com aquele paciente naquele momento!

As idealizações sobre nós, sobre o paciente e sobre nós e o paciente. O imenso rol de teorias e teóricos (nossos ídolos, santos e demônios). Que enorme contingente de

objetos, por vezes, mais persecutórios que protetores, que entram conosco na sala de análise! Botar a maioria, ou serão todos eles, para fora, é também tarefa árdua.

Gostaria ainda de comentar alguns dados que Marina nos oferece sobre sua paciente. Conjecturo que os sintomas se apresentam em um momento de crise da jovem,

diante da possibilidade de separar-se da mãe e se constituir, não mais como parte, mas por si só. Ir para o exterior.... sair do fundo lodoso da relação viscosa com a mãe

e vislumbrar o mundo externo. Ansiedades persecutórias relacionadas a linguagem, ao conhecimento..., ansiedades diante da possibilidade de desenvolvimento da

capacidade verbal. O mecanismo obsessivo protegendo-a do pensar por si e em si, evitando o enlouquecimento dos pensamentos incestuosos e o suicídio com os

pensamentos parricidas, já que matando a mãe a que está grudada, também ela morre. 7 Michael Balint, psicanalista húngaro, cunhou o termo Ocnofilia, pouco usado

atualmente, mas bastante interessante, que descreve a tendência a se ligar e se unir aos objetos primários (mãe) num tipo de ligação tão forte, de natureza fusional,

gerando estados fóbicos pela fantasia de aprisionamento na relação.(Zimerman,2001) No entanto, a capacidade de continência, a paciência e perseverança da analista,

além de outros recursos analíticos, criaram um espaço capaz de conter as angústias de ambas. Algo vai acontecendo nos pequenos traços colocados na tela viva que a

dupla vai compondo e fazem surgir alguns contornos. Mas, com isso uma ameaça é vivida na análise, sentida como o que lhe impõe e enfia os pensamentos dentro dela.

A analista/mãe, ocupando o lugar de um superego tirânico, a obriga a pensar aquilo que tinha até então sido só vivido e repetido, mas nunca pensado de fato. Gabi

introduz então, um terceiro. Um terceiro com a função paterna de interdição: a Meditação mindfulness. (atenção plena- focar no que está acontecendo agora) O objeto

interno representante da mãe é trazido como um ser que engolfa o filho, afastando os terceiros. E assim Marina é colocada diante da questão: ela permitiria à filha esse

movimento? Aceitaria que interditasse sua relação com a terapeuta/mãe, relação essa temida como incestuosa e homoafetiva? Esse terceiro a protegeria dos desejos

incestuosos de fusão com a analista e do perigo de pensar com ela (analista), o que se assemelharia a relações sexuais. Acompanhando o movimento de Gabi, e capaz

de tolerar as angústias trazidas pelas alterações necessárias no setting, permite que a jovem possa se relacionar com uma mãe/analista que não morre e também não

mata. Ela, Gabi, não mata a analista e tampouco é morta por ela. Gabi pode então fazer movimentos mais criativos, concedendo espaço às forças do Id e se desgrudar,

se separar. Marina finaliza seu trabalho com indagações. Fiquei muito tentada com elas e esbocei alguns pensamentos. 8 Pergunta ela: Tudo isso seria resultado das

técnicas de meditação? Penso que não. Ela precisava de uma defesa para poder viver algo totalmente diferente da relação materna original, uma defesa de

intelectualização que permitisse o afastamento dos sentimentos, vivências e fantasias, através de construções abstratas e filosóficas, quiçá supostamente cientificas.

Marina, questiona-se: Seria em função de ter podido ser ela mesma, em todas as suas partes? ... ter podido se distanciar? Entendo que a analista/mãe priorizou as

necessidades da filha, possibilitando que ela se distanciasse, sem precisar romper, no entanto. Suportou ouvir e saber das experiências da filha com um outro (pai) sem

se destruir e sem engolir (se fundindo) a paciente. Ah! A tatuagem me fez pensar que seria uma marca da separação e da diferenciação com a figura materna.

Originalmente as tatuagens eram tidas como cicatrizes de ferimentos ocorridos em guerras e na caça. Imagino a intensa e feroz luta desbravada para conseguir se

desvencilhar desse enredamento mórbido e intensamente erótico vivido com a figura materna. Ou, também, quem sabe, um sinal de “nascença”, de ter finalmente

emergido como ser nos delicados, mas fortes e intensos, pequenos traços depositados pela experiência analítica com e de uma mãe amorosa o bastante para lhe permitir

ser inteira, ser Gabriela, quem sabe. Retomando em conjunto os relatos dos casos, me ocorre algo sobre as escolhas metafóricas. O luto ⎯ dura luta entre a vida e a

morte ⎯ cotidianamente travada por todos nós todos os dias, e as delicadas Ninfeias de Monet, para acompanhar o movimento frágil e delicado de uma mente primitiva,

em uma jovem que é só parte, pois a outra 9 lhe foi tirada pelo enroscamento na orgia narcísica materno-filial. Finalizando, novamente citarei Antonino Ferro, à respeito

de uma das possibilidades na função analítica. ....brincar com os significados, brincar com nós mesmos, isto nos leva à criatividade que é a formação de novos

significados nunca antes pensados e nunca pensáveis por um único membro da dupla analítica.


(Ferro, A.2011:35) Muito obrigada Liliane, Marina, meus queridos colegas

e amigos. Referencias Ferro, A. (2005). Antes Ali Quem. Trad. Ester Hadassa Sandler, São Paulo, Hirondel. Ferro, A. (2011) Evitar as emoções, viver as emoções. Trad.

Marta Pretricianni. Porto Alegre, ARTMED. Simon, R. (1998) O luto não elaborado e relações de tempo, lugar e memória. Boletim de Psicologia. Vol. XLVIII (108):49-66.

Zimerman, D.(2001) Vocabulário Contemporâneo de Psicanalise. Porto Alegre, ARTMED. Sueli Rossini 10 de junho de 2017 suelirossinipsico@yahoo.com.br